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terça-feira, 30 de agosto de 2011

O sol se pôs, temos que voltar para casa e...



A moto ta sem luz.
Já anoitecia quando juntávamos as pranchas na capa 
depois de uma sessão de surf para lá de crowdeada em Hollow Trees. O humor não estava dos melhores para mim e para o Eddie 
que ficamos sentados no outside por 2 horas para pegar duas ou três ondas. Mas é mentawai, o por do sol tava bonito, cheer up!
Bom, a tentativa de manter o bom humor foi logo em seguida trocada por aquela leviana sensação de “fodeu” quando vimos que a luz da moto realmente não ia pegar.
A nossa pousada em Lances Left ficava do outro lado da montanha 
e o caminho todo até lá era literalmente pela floresta.
Somado a isso tinha o pequeno detalhe de que passaríamos pela Vila onde havia sido detectada malária e a noite tem mais mosquitos que de dia.
No teve jeito, o Eddie guiou e fui na garupa segurando as pranchas.
Passamos ilesos dos mosquitos e mais a frente batemos de frente em uma arbusto que parecia ser a continuação da trilha.
Em outro trecho escorregamos no barro 
e para ficar mais divertido caímos da moto na subida.
Descemos da moto e fomos iluminando o caminho com o relógio na descida.
Depois de certo tempo a visão parecia ter se acostumado com o escuro e aí ficou quase instintivo descrever o caminho certo.
Teve a parte legal de escutar os macacos, enxergar os vaga lumes,
Levar tapa na cara das folhas dos coqueiros
e dar bastante risada quando enfim chegamos ao nosso destino. 

O funcionamento da comunidade

Apos alguns dias na ilha é possível compreender um pouco melhor 
o funcionamento da comunidade ao redor da pousada.
Ao lados das cabanas, existe uma pequena tribo 
que participa bastante nas funções de manutenção e limpeza 
de terreno da área da kings Fisher.
Um pouco mais atrás das montanhas existe outra tribo um pouco maior que se refugiou para lá depois que a tsunami invadiu toda a região próxima a praia.
Essa tribo sobrevive da colheita de matérias primas 
como por exemplo o cacau para a produção de chocolate, 
cravo para a produção de cigarros como gudang garam
e coco para a produção de óleos.
O que mais me chamou a atenção foi cheiro de cravo nas florestas.
Principalmente ao entardecer esse cheiro fica bem intenso.
Ao amassar uma folha de cravo, 
a mao fica perfumada por um bom tempo.
Um pouco mais para frente da floresta a mata tenta se recuperar aos poucos.
Em outubro do ano passado todo o terreno onde está a pousada foi destruído. 
Sobrou apenas a parte estrutural das cabanas e incrivelmente nesses últimos 10 meses todo o resto foi reconstruído com a ajuda do povo ao redor.
Mais do que apenas reconstruir, os siporas empenharam um grande capricho na finalização dos detalhes. 
As vigas foram milimetricamente reforçadas,
as folhas de coqueiros, utilizadas para confeccionar as paredes e os tetos, foram pacientemente trancadas e concedem uma certa unidade harmônica que até parece luxuosa. 
O resultado parece ter sido um trabalho de anos e nao apenas meses.
O Ben, proprietário da Kings Fisher, estava aqui quando a tsunami atingiu sua propriedade e sobreviveu porque conseguiu se agarrar firme em um pilar de madeira. Infelizmente muitas famílias nao conseguiram se agarrar em nenhum pilar e foram levadas pela massa d´agua.
As marcas desse acontecimento ainda são bem perceptíveis para o pessoal que mora por aqui.
E o respeito pelos que foram é algo bem sagrado para eles.
Entre os sobreviventes, uma das pessoas que Ben me mostrou foi kondar, um homenzinho forte de 40 anos a quem ele me pediu para manter certa distancia.
Kondar é considerado um Dunkun na comunidade. Dunkun para os siporas é uma posição hierárquica abaixo dos shamans, uma pessoa com alto poder religioso, capaz de realizar magias e sentir a presença dos espíritos.
Vale dizer que nao sei até onde acredito nessas coisas,
mas escrevo como relato da forma como eles enxergam a religiosidade aqui.
O Ben e sua família respeitam os locais e os locais respeitam a família do Ben
E assim ambos aprendem a coexistir pacificamente. 
É como se fosse o início da criação de uma comunidade, onde as regras vão se estabelecendo aos poucos e naturalmente.